Resenha Travessuras da menina má – por Mario Vargas Llosa

Acompanhe em:
Skoob
Goodreads
Compre:
Americanas
Saraiva
Amazon
Sinopse:
Nos anos 50, no bairro aristocrático de Miraflores, em Lima, o jovem Ricardo Somocurcio se apaixona pela estonteante e misteriosa “chilena” Lily. Depois de descobrir que, na verdade, ela é peruana e de origem humilde, ele a perde de vista, mas não consegue esquecê-la.

Ricardo, um intérprete da ONU sem grandes ambições, e Lily, mulher fria e manipuladora que vive mudando de nome e de marido conforme as conveniências, se reencontram ao longo da vida, em diferentes momentos e em várias cidades do mundo.

A obra, é um clássico literário, digno de diversos prêmios como:
Prêmio Cervantes, Prêmio Príncipe de Astúrias, Prêmio PEN/Nabokov, Prêmio Grinzane Cavour e Prêmio Nobel de Literatura.

Assim, ao mesmo tempo em que conta a história de um amor arrebatador, Travessuras da menina má traça um quadro vigoroso das transformações sociais européias e convulsões políticas da América Latina. Muitas das experiências de vida de Vargas Llosa aparecem aqui, por meio de seus personagens – os tempos de penúria em Paris, seu trabalho como tradutor, sua simpatia pela revolução cubana e a ligação permanente com seu país de origem, o Peru.

Criando uma tensão entre o cômico e o trágico, numa narrativa ágil, vigorosa e terna, que conduz o leitor nesta dança de encontros e desencontros, Mario Vargas Llosa joga com a realidade e a ficção para contar uma história em que o amor se mostra indefinível, senhor de mil faces, como a menina deliciosa e má.

Ricardo Somocurcio perdeu seus pais muito cedo, e acabou indo morar com sua tia Alberta no bairro de Miraflores em Lima (Peru).

Adepto de passeios e diversões com os amigos em meio a festas,
e o deslumbre de novidades e encantamentos da década de 50,
Ricardo construía, aos poucos, a sua felicidade em meio a um Peru um tanto empobrecido e conflituoso.

” Naquele verão extraordinário, nas festas de Miraflores todo mundo parou de dançar valsas, corridos, blues, boleros e
huarachas, porque o mambo arrasou. O mambo, um terremoto que fazia todos os casais infantis, adolescentes e maduros se sacudirem, balançando, pulando e fazendo firulas
nas festas do bairro. E certamente acontecia o mesmo fora de Miraflores, para além do mundo e da vida, em Lince, Brena, Chorrillos, ou nos ainda mais exóticos bairros
de La Victoria, o centro de Lima, o Rímac e o Porvenir, onde nós, miraflorenses, nunca tínhamos pisado nem pensávamos pisar jamais”.

Adolescênte, vivendo uma das melhores fases de sua vida, Ricardo aproveitava ao máximo. Sem saber, que muito em breve alguém chegaria e mudaria, ou, agregaria seus objetivos, para sempre.

“Mas o fato mais notável daquele verão foi a chegada a Miraflores, diretamente do Chile, seu distante país, de duas irmãs cuja presença marcante e inconfundível
jeito de falar, rapidinho, esquecendo as últimas sílabas das palavras e arrematando as frases com uma exclamação aspirada que soava como um “pueh”, deixaram abobalhados
todos os miraflorenses que acabavam de trocar as calças curtas pelas compridas. E eu, mais do que qualquer outro”.

Desde o início, ele já estava perdido…
A razão, ou motivo que ocasionava a ausência desta, não tinha nome definido até então. Apelidava-se (Lily).

” Eu me apaixonei por Lily feito um bezerro, a forma mais romântica de se apaixonar – também se dizia queimar feito um tição -, e naquele verão inesquecível
me declarei três vezes a ela. A primeira, depois da matinê de domingo, no balcão do Ricardo Palma, aquele cinema que ficava no Parque Central de Miraflores, e ela
me disse que não, porque ainda era muito nova para ter namorado. A segunda, na pista de patinação inaugurada justamente naquele verão perto do Parque Salazar, e
ela também não me aceitou, precisava pensar, porque, por mais que gostasse um pouquinho de mim, seus pais lhe pediram para não arrumar namorado antes de terminar
o quarto ano e ela ainda estava no terceiro. E a última, poucos dias antes da grande confusão, no Cream Rica da avenida Larco, enquanto tomávamos um milkshake de
baunilha, e ela, é claro, disse outra vez que não, para que ia dizer que sim se já parecíamos namorados do jeito que estávamos”.

Ricardo foi pego!
Sim, desde a adolescência, esse homem se apaixonou. Construíndo assim, um amor que duraria para vida inteira. Mesmo que, houvessem outros amores que o consolariam em momentos sombrios de extremo vazio e carência.

Amor para a vida inteira?
Talvez sim, talvez não…
Inicialmente, podemos observar o mistério, e as dificuldades da conquista.
Ele nem sequer sabia o seu verdadeiro nome, conhecia sua família, sabia da nacionalidade daquela, ou aquelas chilenitas, que posteriormente, identificariam-se peruanitas…

” Nunca vi a cara dos seus pais. Elas nunca me levaram, nem a qualquer outro garoto ou garota do bairro, à sua casa. Nunca comemoraram um aniversário, nem
deram uma festa, nem nos convidaram para lanchar e brincar, como se tivessem vergonha de mostrar como era modesto o lugar em que viviam. O fato de serem pobres e
se envergonharem de tudo o que não tinham me enchia de compaixão, aumentava o meu amor pela chi-leni ta e me infundia propósitos altruístas: “Quando Lily e eu nos
casarmos, vamos levar toda a família dela para morar conosco.”.

Um relacionamento, onde as dores do passados são eternas. Onde existem barreiras de proteção tão intransponíveis, que o amor nem sequer consegue entrar. E quando consegue, não permanece…
Sim, o dinheiro fala mais alto durante toda a trama. E grandes chances de fazer com que tudo realmente dê certo, vão para o ralo…

Encontros e desencontros em diversas fases da vida, cidades, e até países.
É o que temos para o romance conturbado de Ricardo e Lily.

Sim, eles se encontram e desencontram, praticamente a vida inteira.
Ela, sempre mudando de nome, de nacionalidade, de marido, de personalidade.
Ele, a ajudando em dificuldades, crescendo profissionalmente, a encontrando uma vez ou outra, desistindo, indo atrás, se iludindo, vivendo como pode, catando migalhas…

Desde o início, as mentiras sempre existiram.

Eu fui o último a saber, quando Lily e Lucy já haviam desaparecido misteriosamente, sem se despedir de Marirosa nem de ninguém — “mordendo o freio de tanta
vergonha”, sentenciaria a tia Alberta -, e o boato sibilino se espalhara por toda a pista de dança deixando em alvoroço a centena de garotos e garotas que, esquecidos
da orquestra, de seus namorados e namoradas, dos sarros e amassos, cochichavam, repetiam, alarmados e exaltados, abrindo uns olhos enormes que fervilhavam cheios
de maledicência: “Viu só? Já soube? Escutou? Que coisa! Percebe? Imagina, imagina!” “Não são chilenas! Não, não eram! Pura lorota! Nem eram chilenas nem sabiam nada
do Chile! Mentiram! Enganaram! Inventaram tudo! A tia da Marirosa acabou com a festa delas! Que bandidas, que bandidas!”
Eram peruanitas, pronto. Coitadas! Coitadinhas! A tia Adriana, recém-chegada de Santiago, deve ter tido a maior surpresa da vida ao ouvi-las falar com aquele
sotaque que nos enganava tão bem mas que ela identificou imediatamente como uma impostura. Como devem ter-se sentido mal as chilenitas quando a tia da gordinha fofa,
adivinhando a farsa, começou a perguntar sobre sua família santiaguina, o bairro onde moravam em Santiago, o colégio em que tinham estudado, sobre seus parentes
e as amizades de sua família em Santiago, fazendo Lucy e Lily passarem o momento mais amargo de suas curtas vidas, encarniçando-se com elas até que, expulsas da
sala, destruídas, espiritual e fisicamente demolidas, proclamou diante de seus parentes e amizades e da atônita Marirosa: “Que chilenitas que nada! Essas
meninas jamais puseram os pés em Santiago e são tão chilenas como eu sou tibetana!”
Naquele último dia do verão de 1950 eu também acabava de fazer 15 anos -, começou para mim a vida real, aquela que discrimina os castelos no ar, miragens
e fábulas da crua realidade.
Eu nunca soube muito bem a história completa das falsas chilenitas, nem ninguém mais soube, exceto as próprias, mas ouvi as conjeturas, intrigas, fantasias
e supostas revelações que perseguiram por muito tempo, como um rastro de rumores, aquelas chilenitas de mentira, quando elas já tinham deixado de existir — uma
maneira de dizer -, porque nunca mais foram convidadas para as festas, nem para os jogos, nem para os chás, nem para as reuniões no bairro. As más línguas diziam
que, embora as garotas decentes do Bairro Alegre e de Miraflores não as freqüentassem mais, e virassem a cara quando cruzavam com elas na rua, os meninos, rapazes
e homens as procuravam às escondidas, como se procuram as piranhas e o que eram Lily e Lucy, senão duas piranhas de algum bairro como Brena ou El Porvenir que, para
ocultar sua origem, tinham passado por estrangeiras para se infiltrar entre as pessoas decentes de Miraflores? – para tirar um sarro, para fazer com elas essas coisas
que só as índias e as piranhas deixam fazer.

O que mais me chamou atenção em Ricardo, foi a sua determinação.
Certo que até o fim de sua adolescência e início da fase adulta, ele e Lily, nunca mais se viram.

Com isso, Ricardo terminou seus estudos, migrou para Paris, realizando seu sonho de morar na cidade luz, tornando-se um importante tradutor e intérprete.

Daí pra frente, foram encontros e desencontros, e muitas aventuras, praticamente ao lado dessa mulher que aparecia e reaparecia na vida de Ricardo.

O que te faz considerar um amor a ser para a vida inteira?
Independente de falhas e dificuldades, será que não existe nada que te faça parar, repensar a sua própria vida e se permitir a ser feliz, ao lado de tal pessoa que te ama, antes que seja tarde?

” Você deve ser a última pessoa no mundo que ainda diz essas coisas às mulheres. Sorria, divertida, olhando-me como se fosse um bicho estranho.
– Que breguices você diz, Ricardito!
– O pior não é dizer. O pior é que as sinto. São verdade. Você me transformou num personagem de telenovela. Eu nunca disse essas coisas a ninguém.
Ninguém pode nos ver assim, nunca – disse de repente, mudando de tom, agora muito séria. A última coisa que quero é um ataque de ciúmes do meu insuportável marido.
E agora preciso ir, Ricardito.
– Vou ter de esperar mais quatro anos para ver você?
– Na sexta-feira – definiu logo, com um risinho malicioso, passando outra vez a mão no meu cabelo. E, depois de uma pausa para criar efeito: Aqui mesmo. Vou pedir
um quarto em seu nome. Não se preocupe, coisinha à-toa, que eu pago. Traga alguma bagagem, para disfarçar.
Respondi que tudo bem, mas que eu mesmo pagaria o quarto. Não pretendia trocar minha honesta profissão de intérprete pela de cafetão.
Soltou uma gargalhada, esta sim, espontânea:
– É claro! – exclamou. – Você é um cavalheiro miraflorense, e portanto não aceita dinheiro de mulher”.

Um belo exemplo… Não o próprio a seguir. Porém, um dito exemplo de força, e determinação.

Quem não se perderia em meio a tantos encontros e desencontros?
Quem se manteria com tantos relacionamentos afetados, privando-se de ter uma vida própria, uma família, por conta de um amor do passado?
Quem se manteria tão íntegro, mantendo intacta a própria carreira, conquistando seus objetivos, porém com o coração vazio?
O que o faria juntar todos os cacos, para que pudesse se reconstruir a cada fim.
E porque não, em um, definitivo?

Resposta: O amor verdadeiro.
Aquele, que nem sequer a distância apaga.

Os conflitos, os medos, as dificuldades, os encontros e desencontros, as mentiras, as doenças e novamente, as mentiras…

Pode ser que o amor até tenha existido em ambas as partes. Só que para um lado, o dinheiro sempre falou mais auto.

Travessuras da Menina Má, é uma bela prova de que quem tudo quer, pode acabar terminando sem nada.
Porém, ao fim do livro, temos uma única reflexão.

O amor sempre vence.
Vale apena amar.
O sentimento pleno de paz, de dever cumprido, não se compra, não se ganha. Se constrói.

Foi, o primeiro romance adulto em Braille que li.
E, desde esse dia, nunca mais parei de ir atrás de romances.
Talvez, eu seja mais um Ricardo por aí.
Vivendo dentre diversos amores, alimentando um próprio, acreditando em um sentimento puro, que pelo menos dentro de mim, ainda vive. E, viverá, até que a história tenha um definitivo fim.

Se você gosta de romances que te prendam, curte caminhar nessa linha tênue entre o amor e o ódio, As Travessuras da Menina Má é para você!

Autor: da redação

Cronista, locutor, universitário, apreciador assumido de R&B, POP e MPB. Respira o romance 24:00. Por isso, embarca em dois romances incompletos, os quais um dia sonha em terminar. Atualmente sustenta uma coluna pública no site Recanto das Letras, e escreve com mais liberdade em seu próprio blog. Já tentou ser músico, se aventurou em meio ao teatro, e ainda arrisca algo no meio humorístico. Adepto a produção publicitária, se descobriu locutor na maior idade, e faz disso um complemento a todo o seu trabalho. Apaixonado pela literatura antiga, mas não abre mão de obras atuais para passar o tempo, por mais que esteja constantemente garimpando por obras inspiradoras, e as encontrando. Admira escritores que se destacam em descrever com perfeição os sentimentos, e faz disso sua inspiração. Gosta de viajar, conhecer novas pessoas, se aventurar em meio a novos assuntos, se inspirar e escrever sobre tudo aquilo que tem oportunidade. Ama a vida, admira sorrisos sinceros, se dedica em ajudar em tudo que esteja ao seu alcance, e luta diariamente por um mundo melhor. Vive com todos e por todos, em uma união de equilíbrio, paz e luz.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *